Está chegando aquela época do ano... Alias, já estamos naquela época do ano... A da campanha promovida todos os anos pela Rede Globo sob a guarda do guardião das criancinhas, o "Rei Dos Baixinhos", Renato "Didi Mocó" Aragão, o Didi Mocó.
Já vou dizer que não acho a campanha uma farsa. Não faz sentido a Rede Globo queimar seu "bom" nome em jogo ao meter a mão num apanhado de doações feitas por donas de casa lacrimejosas e crianças que ligam do telefone de casa só por que o Didi Mocó, o Didi, está insistindo.
No sábado a noite um batalhão de artistas/personalidades junto com artistas no fim de carreira (Xuxa), músicos desesperados para aparecer, atrizes/modelos/jornalistas desfilando os novos implantes e o incomum artista/músico de sucesso estarão entrando em nossas casas. Durante as três horas do espetáculo, eles farão a parte deles para "contribuir para uma sociedade melhor." E no dia seguinte, parte deste zoológico humano voltará a sua vida de ignorar toda e qualquer pessoa que precisa viver com um salário mínimo mas alguns continuarão a prestar seu serviço para a sociedade.
O que me incomoda com a campanha Criança Esperança é que, por algum motivo, as pessoas e as empresas acham que, ao doarem valores de 7, 15 ou 30 reais, eles estarão cumprindo integralmente seus papéis sociais por todo o ano. Me parece que ao fazer a doação e se sentir bem o doador, como num ato de batismo, pode passar mais um ano ignorando causas sociais.
Faça a sua doação se isto lhe fizer bem, mas pense um pouco no que sua doação realmente significa, você está fazendo a sua parte para auxiliar o próximo - tente viver as próximas 50 semanas (até a próxima campanha) de acordo.
Eu nem vou comentar sobre as empresas que fazem "grandiosos" gestos como doar R$ 50 mil quando este é o valor do lucro líquido deles durante duas horas num dia de feriado bancário - este é um alvo fácil demais. Vou comentar sobre as celebridades que, usando sua fama e status promovem ações com propósitos sociais - considero que existem duas ações, as que "fazem bem" e os que realmente fazem bem.
O circo-fetichista, Marcos Frota, tem uma ONG circense é um exemplo de "fazer bem" - sua fundação auxilia crianças carentes a sair das ruas e lhes ensina uma profissão, a de ator de circo. A vida de artista de circo certamente não é fácil - além do perigo inerente à profissão, você não tem chances de crescer na sua carreira e expandir - a não ser que vá para o Cirque du Soleil, o que é, convenhamos, improvável. Outro, os circos estão fechando - o que é natural já que a TV virou a nova forma de entreter as massas - o valor do picadeiro se esvaziou e agora ele existe apenas com uma atração peculiar. Finalmente, por aquilo que pude levantar do site da própria fundação e em uma pesquisa no Google, a Unicirco (ONG que promove as escolas) existe em cidades relativamente pequenas e calmas (Vinhedo e Jundiaí) onde existe carência social mas numa escala miúda comparada com os grandes centros urbanos.
Não mancharei o nome da pessoa que realmente faz bem ao citá-la neste meu blég cheio de palavras de fúria e protesto. Darei apenas um link para a página dela no Wikipédia, aqui.
Estes são dois ótimos exemplos de "fazer bem" e fazer bem - um deles altera a vida das crianças de uma maneira dramática e definitiva e o outro, fundamentalmente, não muda nada.