sexta-feira, 10 de agosto de 2007

Perigo Real vs. Perigo Percebido

Uma coisa que me aflige sobre nós, humanos, é como não conseguimos abraçar alguns conceitos simples - o meu preferido é o conceito de risco real vs. risco percebido.

É fácil de entender, o que você acha mais perigoso: a doença da Vaca Louca, que ressurgiu na Inglaterra há poucos dias, ou uma banheira?

A resposta irá te surpreender - nos EUA, até maio de 2006, ninguém havia morrido da doença mas, em média, 320 americanos morrem afogados em suas banheiras por ano. Sei que está pensando, "a vaca louca não é na Inglaterra?", então, que tal estes números, desde 1990, ano da primeira detecção da doença, morreram 1210 pessoas (média de 71 mortes por ano) - uma incidência três vezes menor do que o número de mortos no trabalho, 212, no período de 2005/2006.

Entretanto, a doença da Vaca Louca é considerada mais perigosa do que banheiras e o escritório.

As razões disto são variados, como não poderia deixar de ser. O principal é que temos mais medo de sofrer do que temos de morrer. Pense a respeito disso, seria melhor sofrer por anos ou ter um fim rápido? Entendeu o ponto?

É claro que o medo de sofrer é uma reação natural das pessoas, é o instinto de preservação já que estamos programados para evitar o sofrimento desnecessário. Entretanto existe uma diferença clara entre os dois tipos de perigo - um deles vem diretamente do frenesi provocado por falta de informação e o outro é um medo racional que faz parte de viver.

Outro perigo percebido vs. perigo real é andar de avião ou de carro. Os números não mentem, só este ano o Brasil teve vários acidentes aéreos que resultaram em vítimas, um grande e vários pequenos - inclusive um aqui em São José dos Campos. Não sei exatamente quantas pessoas perderam a vida, mas vou colocar o total de mortes em 400 pessoas (o número deve ser menor já que, geralmente, chuto alto demais). O número de mortos nas estradas brasileiras é de 40 mil por ano (clicar no "Especial", tem um gráfico com este valor lá).

Ah, os apologéticos levantam as bandeiras de que você pode sobreviver um acidente de carro mas não pode sobreviver um acidente de avião. É verdade, mas acidentes de avião são muito mais raros do que acidentes nas estradas, só no Brasil são 723 acidentes por dia! De acordo com estatísticas americanas, o motorista americano médio tem uma chance em 7700 de morrer num automóvel, comparado com uma chance em 2.067.000 de morrer em um avião.

O perigo percebido é a manifestação dos nossos medos multiplicados por imagens e relatos de catástrofe que nós somos expostos. Ao ouvirmos as histórias dos parentes dos passageiros do Vôo 3054 da TAM, não podemos deixar de nos emocionar mas isso ofusca nossa capacidade de ver o perigo real, algo que certamente tornará nossas vidas muito menos "perigosas" e muito mais agradáveis.

Você sabia que, por ano, o Brasil é atingido por entre 50 e 70 milhões de raios? Você sabia que, apesar deste número monstruoso, apenas "uma centena" de pessoas morre? Cem mortos por ano deveria ser muito pouco para levar o povo ao pânico, você não concorda?

Aparentemente, até o Bruce Schneier comentou sobre Risco Percebido vs. Risco Real e, num livro que pretendo ler, O Que Nos Faz Felizes, tem um trecho sobre este mesmo tema. Aparentemente não sou o único que fica incomodado com o fearmongering que se tornou parte da nossa sociedade ocidental.

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