terça-feira, 14 de agosto de 2007

Razão e Crença

Há alguns meses, num exercício mental, eu imaginei o que aconteceria quando duas pessoas, de lados radicalmente opostos de uma questão, fossem trancados em um quarto acolchoado por um período de 30 minutos. Fiz o exercício com Bill Gates e RMS, Bill'O e Keith Olbermann, GWB e Chávez, Roberto Jefferson e Zezinho Malvadeza, todos com resultados mais ou menos interessantes até chegar em Richard Dawkins e Fred Phelps, com estes eu cheguei a uma conclusão interessante.



VS




Para quem não sabe (e não leu o link do Wikipédia), Richard Dawkins é um biólogo evolucionário ateu radical que discursa para que abandonamos a idéia de Deus. Fred Phelps é um pastor batista cujo destaque está em fazer protestos em funerais insultando segurando cartazes com dizeres que visam demonstrar que o morto violava a vontade de Deus.

O Brasil não possui estes dois tipos de personalidade por uma série de motivos mas é importante entender que o Brasileiro nativo, sem acesso aos discursos e idéias dos dois homens citados acima, é incapaz de entender o amor que cada um tem por suas idéias e o ódio que cada um teria pelo outro.

Apesar de estarem em lados opostos, radicalmente opostos do muro, considero as técnicas e discursos dos dois parecidos - não por seu conteúdo, obviamente, mas por sua convicção e oratória. Dawkins sofre mais com esta imagem já que ele prega a abolição do conceito teísta (Deus) utilizando as mesmas táticas de argumentação que os evangelizadores (como o Phelps) utilizam. Certamente ignoro o conteúdo neste caso mas, devido aos seus discursos inflamados, vejo o ateísmo do Dawkins como sendo mais uma religião.

Durante o meu exercício, imaginei os dois tentando dialogar, tentando encontrar um meio termo - apesar de saber que os dois jamais arredariam o pé de suas convicções. Vi um dos seguintes cenários:
Eu ia descartar o exercício como sendo inconclusivo mas aí pensei no verdadeiramente impossível, os dois haviam, por algum milagre divino ou consumo livre de LSD, chegado a um consenso, um verdadeiro meio-termo entre ciência e . Uma explicação global para que, através da fé, fenômenos científicos fossem explicados.

Aí imaginei cada um voltando para os seus mais fanáticos seguidores com os resultados:
Não vejo possibilidade de não serem mortos devido aos próprios discursos, seus "fiéis" certamente não aceitariam que o seu grande líder se tornasse "um deles" e tomariam as devidas medidas para purificar o homem.

Após dar risada de tanta sodomia e canibalismo, eu ponderei na dictomia entre a razão (ciência) e crença ().

Sobre ciência e fé, num pequeno comentário.

Fé em algo não necessita de provas, alias, provas só servem para minar as fundações da fé (o argumento Babelfish, do Douglas Adams). Alias, duas das definições de fé (faith, dicionário bom do português online é quase impossível) são "crença confiante na verdade, valor e confiabilidade de uma pessoa, idéia ou coisa" e "crença que não depende de prova lógica ou provas materiais." Q.E.D.

Ciência é "a observação, identificação, descrição, investigação experimental e explicação teórica de um fenômeno."

Voltando a grande iluminação que tive após o exercício...

Crença e razão não podem se misturar, são como vinagre e óleo mas, ao contrário do vinagrette, não existe um emulsificante poderoso o suficiente que possibilita a existência dos dois já que são uma dualidade. Um cientista religioso perde sua credibilidade científica do mesmo jeito que um religioso cientista perde credibilidade religiosa.

Apologéticos argumentam que existe um meio-termo, é da nossa natureza querer conciliar as dualidades, mas, sem dúvida e sem névoa, não existe meio-termo. Entretanto, devo deixar claro, não existe nada de errado nesta situação, as vezes, não existe "certo" e "errado" e sim "coisa" e "coisa", ambos sem nenhuma relação com o outro - que é o caso de ciência e religião.

Cada um, independente, tem seus propósitos - a religião tem seus propósitos, diferentes e não-coincidentes com a ciência e suas propostas. Compará-los, vislumbrar complementariedade e até o anseio de conciliar os dois é um exercício de futilidade.

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