segunda-feira, 15 de outubro de 2007

É Caveira Meu Capitão

Neste final de semana fui assistir Tropa de Elite (legenda em inglês, página do Wikipédia, Wikipedia e IMDB). Saí do cinema satisfeito que alguém teve a coragem de dizer alguns fatos o que os intelectuóides lutam bravamente para ocultar, o principal é esta, em destaque para os míopes conseguirem ler:


O crime é financiado pelas classes médias e altas.

É um exercício mental trivial chegar a esta conclusão - tão trivial que é pretensiosamente ignorado pelos grupos de defesa de direito dos bandidos. Ao comprar produtos de contravenções e drogas você está tornando lucrativo a criminalidade e, portanto, incentivando a prática de mais contravenções e de mais tráfico - é uma simples questão econômica.

De volta ao filme...

Ao contrário de filmes como Cidade de Deus, Tropa de Elite vê as favelas cariocas do ponto de vista da polícia do Rio de Janeiro, em especial a vista de um capitão do BOPE (Batalhão de Operações Policiais Especiais). Não há glamourização da vida de um policial (corrupto, honesto, violento ou pacífico) nem da vida do criminoso (favelado ou de classe média ou alta).

O filme é um tapa na cara da sociedade e, ao ser visto, deverá provocar em cada um de nós um senso de justiça cumprida e é exatamente isto que o filme proporciona - justiça, olho por olho. Não há nenhuma tentativa de justificar a violência empregada pela polícia nem de tornar a tropa mais humana - é uma realidade crua e sangrando para o seu apreço.

É notável a frieza da câmera, apesar de tudo, ao observar a vida dos personagens, em especial a do Capitão Nascimento ("herói" do filme), papel vivido, com louvores, por Wagner Moura. Do nascimento do seu filho durante uma operação numa favela até a inevitável separação de sua esposa e caçada a um traficante, a câmera não permite que você goste dele. Você, espectador, está apenas observando a vida de um homem dedicado, truculento e com Sindrome do Pânico. A sua simpatia por ele e os outros polícias "heróis" não vem da empatia pela tragédia - dispositivo tipicamente usado para glamourizar a vida dos bandidos em outros filmes - mas da empatia de um homem tentando fazer seu trabalho honestamente.

A podridão da corrupção policial é mostrada - situações absurdas de abuso de poder e a terrível conivência com a contravenção mas uma motivação é dada - os salários baixos. A câmera treme e o diálogo dispara a ponto de deixar o espectador confuso sobre o que está acontecendo - uma direção intencionalmente confusa que reflete muito bem o absurdo do que está se passando na tela. Eu poderia falar muito mais a respeito disto mas as cenas da corrupção ativa na corporação falam por sí mesmas.

A podridão de ONGs, que utilizam frases como "consciência social" para defender os traficantes dos morros cariocas, também é mostrada. Fica claro que para conviver com a criminalidade os jovens idealistas precisam abraçar o crime, no caso de um deles - se tornar criminoso, e aceitá-lo como sendo parte da vida - um fato que não é nem mascarado no mundo real. Certamente isso não se aplica a todas as ONGs mas levanta perguntas que deveriam ser feito a respeito delas.

A ação e treinamento do BOPE, tema central do filme visto pelos olhos e narração do Capitão Nascimento, é retratado sem paixão nem compaixão. São homens duros que passam por um treinamento que elimina 95 de cada turma de 100 inscritos (dados do filme) e que forma uma das melhores tropas de combate urbano do mundo (conforme Wardogs). É impressionante ver que o Brasil, especialmente o Cú do Mundo, tenha uma tropa policial deste calibre.

Existem dúzias de frases memoráveis no filme mas os que mais chamam atenção são as mais absurdas mas perfeitas como a do título deste blog. "É caveira meu capitão" é dito por um atirador ao informar que o alvo está na mira e é morte garantida - não tem ninguém na mira, tem um morto que só falta decompor. A resposta do Capitão Nascimento, "então senta o dedo nessa porra," é dita como se as próximas palavras a sairem da boca dele fossem "por que preciso mijar".

Não pense que este filme fará a velha visão da polícia corrupta e truculenta ir embora. Na verdade, ele só piora a situação já que o filme é "contemporâneo" (os eventos se passam em 1997, antes da visita do Papa ao Rio). As cenas de violência policial deveriam piorar a situação mas a reação pública está sendo justamente o oposto. O público, ao ver seus interesses defendidos na tela, deseja claramente que a polícia seja mais enérgica no combate ao tráfico e a crimes. As autoridades deveriam ver este clamor público como um sinal daquilo que queremos - uma polícia que faz o seu papel de policiar.

O filme, porém, não é reacionário, ele apenas mostra a sociedade que vivemos e o Capitão Nascimento é o fruto desta sociedade. Não tem nada no filme que apele ao espectador para torcer para os policias que torturam nem chama o espectador a desejar o espancamento de bandidos - o "reacionário" do filme não está nas telas e sim nas platéias.
Homem de Preto qual é sua missão?
Entrar pela favela e deixar corpo no chão.

Homem de Preto o que é que você faz?
Eu faço coisa que assusta o Satanás.
- Do Filme

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